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MINHA HISTÓRIA COM O TRATAMENTO DE FERIDAS

Assim que me formei em 1994, fui aprovado no meu primeiro concurso para fazer residência em cirurgia geral no Hospital Nossa Senhora da Conceição em Porto Alegre. Durante os dois anos de cirurgia geral, como parte do programa de residência médica, passávamos por quatro especialidades (urologia, proctologia, cirurgia torácica e cirurgia vascular). Já no segundo mês como residente, fui encaminhado para a cirurgia vascular para passar o mês naquela especialidade. Ali aconteceram coisas incríveis que modificaram a minha vida. 

Normalmente às 7 horas da manhã, os 40 pacientes da ala já tinham sido todos vistos e prescritos, e dali íamos para o centro cirúrgico, mas naquele dia aconteceu algo diferente. Era uma sexta-feira e foi quando nosso chefe Dr. Abrahão Tessler me pegou pelo braço e disse: “Hoje eu vou te ensinar uma coisa que vai ser tão importante na sua vida que, se você quiser, poderá até comprar um jatinho”.

Nossa, na hora eu gelei … pois apesar de recém-formado estava passando, em conjunto com a minha família, pela nossa maior crise econômica. Estávamos falidos e cheios de contas pra pagar, mas isto é outra história. Respondi prontamente para o Dr. Tessler, com as pernas um pouco trêmulas, sem saber ainda do que se tratava: Estou dentro!

 Foi quando saímos caminhando pelo corredor da ala 3 e ele, ainda segurando firmemente no meu braço, começou a falar dos pacientes que tinham feridas nas pernas devido às varizes. 

“Rover estes pacientes sofrem muito e precisamos ajudá-los. Eu coordeno o ambulatório de feridas do Hospital Conceição, que acontece toda sexta-feira pela manhã. No ambulatório de feridas nós temos uma enfermeira que é nossa colaboradora e um tanque aonde lavamos a ferida de cada paciente e, após isso, colocamos a bota de Unna. Preciso de um médico que se comprometa em atender estes pacientes todas as sextas-feiras pela manhã nos próximos dois anos e se você quiser, posso pedir uma dispensa na cirurgia geral para o meu amigo Dr. Helmes Andreiss, para você tocar este ambulatório.”

 Eu aceitei aquela oferta enquanto caminhávamos pelos corredores largos do hospital, mesmo antes de chegar ao ambulatório, tamanha era a empolgação do Dr. Tessler e, é claro, minhas necessidades e curiosidades sobre algo até então desconhecido, uma manifestação final de uma doença chamada insuficiência venosa crônica. 

Então, naquela manhã, a partir do momento em que começamos atender aqueles pacientes com úlcera varicosa, mais ou menos uns quarenta pacientes, umas vózinhas com feridas de mais de décadas que, na sua maioria, tinham feridas com mais de 15, algumas 17 e até 25 anos sem cicatrização, senti na pele o drama e sofrimento daqueles pacientes, uma realidade que eu ainda não conhecia. Algumas das pacientes, apesar de muito sofridas, começavam esboçar um sorriso de confiança naquele tratamento, pois as feridas estavam começando a cicatrizar, e o mais encantador de tudo aquilo era o sorriso de gratidão que cada paciente comunicava ao Dr. Abrahão, muitas vezes através de um fraterno abraço. 

Gente, aquilo foi incrível! Eu assumi aquele ambulatório orientado pelo Dr. Tessler e, a cada dia, fui me apaixonando mais pelos resultados dos tratamentos realizados. Cada úlcera cicatrizada se transformava numa festa, pois o brilho estava de volta no olhar dos pacientes e seus gestos de gratidão eram indescritíveis, aquela paixão se transformou em amor e nasceu dali a minha vontade de fazer cirurgia vascular. 

Foram dois anos de residência em cirurgia geral e mais dois anos de cirurgia vascular, aonde então somei quatro anos em que toda sexta-feira pela manhã atendia esses pacientes com úlcera varicosa.  Em palavras fica difícil expressar minha experiências de vida junto daquelas pessoas muito humildes, bondosas, sofridas, rejeitadas, carentes, que sempre agradeciam com o que temos de mais valor, o amor do coração. 

Assim que cheguei a Cascavel, em 1999, montei um ambulatório de feridas na cidade de Toledo, semelhante ao do hospital Conceição, para pacientes do sistema público, que funcionou até 2014, mudando para Medianeira até 2016 e atualmente em Corbélia, aqui próximo de Cascavel. 

O entusiasmo com o tratamento de feridas, junto com o desenvolvimento de algumas técnicas para a parte estética, me motivaram a montar, em 2011, o Curso Master em Fleboestética e, através dele, em conjunto com meu sócio, amigo-irmão Charles Esteves, já foram treinados mais de 1500 cirurgiões vasculares de todo Brasil. 

Hoje, após 25 anos de experiência no tratamento de úlcera varicosa, associado às novas técnicas e tecnologias, e em conjunto com nossos mais de 300 colegas vasculares que vieram até Cascavel participar dos cursos que ministro desde 2011, milhares de pacientes do Brasil afora foram beneficiados, tendo suas úlceras varicosas cicatrizadas. 

Há alguns anos levei minha esposa e filhos a Porto Alegre e jantamos com o Dr. Tessler, ele já com seus 82 anos e uma lucidez incrível. No meio do jantar, eu pedi um champanhe para celebrar aquele dia. Pedi a palavra para fazer uma singela homenagem ao meu mestre, e disse aos meus filhos que graças àquele tio, o papai tinha ajudado muitas pessoas, e que eu era eternamente grato por seus ensinamentos. Todos choramos, foi um momento mágico. Com certeza, a oportunidade de poder ajudar estas pessoas e poder compartilhar isso com meus colegas são presentes do universo e fazem parte da minha missão de servir o próximo.

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